MONÓLOGO AO PÉ DO PRESÉPIO



Pe. José Felippe Netto



Senhor...

Aí estás, em forma de criança,

deitado em as palhas,

sob o olhar sereno de Tua Mãe

e a proteção de Teu pai adotivo.



O escultor vestiu-Te

com uma camisola branca, mas

eu sei que nasceste pelado,

como eu nasci...

como nascem todas as crianças...

como muitas continuam a viver.



Tua imagem loira,

de olhos claros,

convida à meditação,

à serenidade.



Nasceste pobre, humilde,

numa cocheira...

Porém, os cegos deste mundo

não quiseram ver-Te

e nem aceitar-Te

porque valorizaste a pobreza,

elevaste a humildade.



Peço-Te, Senhor,

nesta madrugada,

por aqueles que não sabem amar...

por aqueles que sofrem...

por aqueles que estão sós

no asilo...

no cárcere...

no hospital...

por aqueles que mendigam

um pedaço de pão ou

um trapo para cobrir o corpo...

por aqueles que, como Tu,

não têm cama para dormir.



Tem misericórdia daqueles

que ganham um salário de fome

e daqueles que não pagam o salário justo...

daqueles que roubam para viver

e daqueles que vivem para roubar...

daqueles que não vivem bem

a vida conjugal

e daqueles que destroem o lar alheio...

daqueles que morrem na guerra

e daqueles que vivem sem paz.



Lá fora, a humanidade

canta...

bebe...

dança...

para comemorar o Teu nascimento,

mas são poucos os que sabem

ou se importam se nasceste

ou porque nasceste.



As luzes começam a se apagar,

o povo já se retirou

e a igreja vai-se fechar.

Espero, Senhor,

que este monólogo

não tenha sido em vão.