.

 

 

PENTECOSTES
 



Nem sempre damos a devida atenção para a lacuna que existe entre a paz que nós buscamos e a paz que o Senhor nos dá. Quando os onze discípulos estavam trancados em uma casa, com medo de quem havia matado o profeta da Galileia, o Ressuscitado veio para eles e disse: "A paz esteja com vocês", e eles "exultaram por ver o Senhor". Porém, a paz que lhes trazia certamente iria tirar-lhes da paz existente no confinamento e na solidão... E Ele disse-lhes: "Como o Pai me enviou, eu também vos envio." O Ressuscitado lhes desinstala e tira da clandestinidade, de sua busca egoísta de segurança. A paz que o Senhor nos dá, nem sempre se parece com a nossa...
Quase sempre ficamos fechados procurando a paz em nós mesmos e evitamos todos os riscos de construção coletiva de nossas comunidades e de nossa sociedade. Nisto somos parecidos com os discípulos. Temos medo de ser feridos e se machucar... Devemos reconhecer que esse medo não é pura invenção. Na verdade, nós temos a experiência das muitas feridas que, em nossas relações com os outros adquirimos. É fato que procuramos evitar a dor e o sofrimento que esses choques provocam em nós. Mas também temos consciência que quando nos fechamos e nos isolamos dos outros e do mundo, nós apreciamos apenas metade da paz; é uma paz frágil e que a qualquer momento pode desaparecer e escapar pelos vãos dos dedos.
Nós nos trancamos em uma frágil paz porque temos medo da mudança, medo dos outros, medo de ser levados para fora do nosso ninho ou do nosso comodismo. O medo nos paralisa, nos bloqueia, nos confunde. Desenvolvemos uma série de táticas para fechar nossas vidas a Deus e nos encerrarmos em nossa prisão. Temos chaves para as nossas “casas”, o nosso “quarto do pânico”, de modo que ninguém pode vir a atrapalhar as nossas vidas com sua insistência, com seus convites com suas instigações. Também nos fechamos no excesso de trabalho... Ironicamente, até podemos usar a oração para manter Deus distante, sem nos incomodar. Podemos passar horas e horas em oração, recitando palavras e repetindo frases sem dar a Deus um momento de silêncio, porque é possível que Ele nos diga algo que perturba a nossa paz e nossa rica tranquilidade aparente.
Mas o Senhor consegue invadir nosso interior com o sopro do seu Espírito, e mesmo com as portas fechadas, como os discípulos no Cenáculo, Ele vem para nos perturbar e nos salva da nossa aparente paz. Essa é a boa notícia hoje. Que o Senhor nunca deixa de vir em nossas vidas para nos dar a sua paz. Uma paz que nos abre para os outros e para o risco de ser feridos. As feridas das mãos e do lado são a primeira coisa que Ele mostrou aos discípulos quando anunciou a paz... É uma paz em conflito, uma paz que se abre a partir de fora de nossas sepulturas para não vivermos como mortos-vivos, mas para vivermos uma vida plena e autêntica, que é cheia de dúvidas e problemas, mas iluminada por Deus nos oferece a vida autêntica em abundância.



Pe Edson
Paróquia Nossa Senhora da Esperança


Respeite os Direitos Autorais